Símbolo do coração quebrado

Teoria Blackfyre

2019.11.08 11:09 altovaliriano Teoria Blackfyre

Link: https://www.reddit.com/asoiaf/comments/156odh/spoilers_all_complete_analysis_of_the_blackfyre/
Autor: Galanix, moderador do asoiaf, em parceria com diversos usuários
Título original: Complete Analysis of the Blackfyre Theory

Nenhuma das informações abaixo é nova. Estou apenas reafirmando as informações coletadas de várias fontes. Se houver algum argumento que eu tenha perdido, eu os adicionarei aqui.

A TEORIA

Aegon (Jovem Griff) não é realmente o bebê de Rhaegar Targaryen e Elia Martell, mas um impostor Blackfyre que Varys e Illyrio Mopatis estão alegando ser um verdadeiro Targaryen. Ele é descendente da linhagem feminina dos Blackfyre (todos os homens foram mortos). Uma variação desta teoria é que Aegon seria filho de Illyrio com sua falecida esposa Serra, que pode ter sido uma Blackfyre. Alguns acham que Varys também pode ter sangue Blackfyre.

ARGUMENTOS A FAVOR

VISÃO DO DRAGÃO DE PANTOMIMEIRO
Uma das visões de Dany na Casa dos Imortais:
“Brilhando como o pôr do sol, uma espada vermelha foi erguida na mão de um rei de olhos azuis que não projetava sombra. Um dragão de pano oscilou em mastros por cima de uma multidão exultante. De uma torre fumegante, um grande animal de pedra levantou voo, exalando fogo de sombras. … Mãe de dragões, matadora de mentiras…”
(ACOK, Daenerys IV)
Dany depois discute a visão com Jorah:
– Um homem morto na proa de um navio, uma rosa azul, um banquete de sangue… O que significam essas coisas, Khaleesi? Falou de um dragão de pantomimeiro. O que é um dragão de pantomimeiro, diga-me?
– Um dragão de pano montado em varas – Dany explicou. – Os pantomimeiros usam-nos em seus espetáculos, para dar aos heróis algo com que lutar.
(ACOK, Daenerys V)
Um "dragão de pantomimeiro" ou dragão falso pode ser uma metáfora para Aegon ser um Blackfyre, e não um dragão verdadeiro (ou seja, um Targaryen). A frase "matadora de mentiras" pode indicar que Aegon é uma das mentiras que Dany pode precisar matar. Outra maneira de interpretar isso é dizer que Varys é o pantomimeiro e Aegon é o dragão de pano que ele está sustentando. Varys é referido como um pantomimeiro em várias ocasiões.
A COMPANHIA DOURADA
Illyrio e Tyrion discutem a quebra do contrato da Companhia Dourada:
– Soube que a Companhia Dourada estava sob contrato de uma das Cidades Livres.
– Myr. – Illyrio sorriu. – Contratos podem ser rompidos.
– Queijo dá mais dinheiro do que eu imaginava – Tyrion disse. – Como conseguiu isso?
O Magíster balançou os dedos gordos.
– Alguns contratos são selados com tinta, outros com sangue. Não direi mais nada.
\Tyrion conta uma história da Companhia Dourada e do passado Blackfyre**
– Admiro seu poder de persuasão – Tyrion falou para Illyrio. – Como você convenceu a Companhia Dourada a aceitar a causa de sua doce rainha, quando eles passaram muito de sua história lutando contra os Targaryen?
Illyrio afastou a objeção como se fosse uma mosca.
– Negro ou vermelho, um dragão ainda é um dragão. Quando Maelys, o Monstruoso, morreu no Passopedra, foi o fim da linhagem masculina da Casa Blackfyre. – O queijeiro sorriu através da barba bifurcada. – E Daenerys dará para eles o que Açoamargo e os Blackfyre nunca puderam dar. Ela vai levá-los para casa.
(ADWD, Tyrion I)
Essa citação é a melhor evidência para a teoria Blackfyre e oferece muitas informações. A Companhia Dourada foi originalmente fundada por Açoamargo (meio-irmão de Daemon Blackfyre e seu aliado mais próximo), e sua missão original era colocar um Blackfyre no trono. Mesmo depois que Daemon foi morto na primeira rebelião Blackfyre, Açoamargo tentou várias vezes sentar um dos herdeiros de Daemon no trono até a morte do último herdeiro masculino.
A Companhia Dourada nunca quebrou um contrato, mas se isso significa cumprir sua missão original, isso faz sentido. Enquanto o contrato quebrado de Myr foi escrito em "tinta", a missão de restaurar um Blackfyre no trono foi escrita em "sangue". Isso também tem respaldo no lema da Companhia Dourada: "Sob o ouro, o aço amargo".
A justificativa de Illyrio para a quebra do contrato Companhia Dourada é que "negro ou vermelho, um dragão ainda é um dragão". Significando que eles não se importam se é um Targaryen ou Blackfyre que eles estão apoiando neste momento, desde que ele os leve a Westeros. No entanto, isso parece contradizer uma lembrança que Dany tem:
Certa vez, seu irmão Viserys oferecera um banquete para os capitães da Companhia Dourada, na esperança de que pudessem apoiar sua causa. Eles comeram sua comida, ouviram seus apelos e riram dele.
(ADWD, Daenerys III)
Parece que eles recusaram Viserys, um dragão vermelho, então talvez ainda se importem. Myles 'Coração Negro' Toyne (ex-capitão da Companhia) é quem fez o contrato com Illyrio em segredo, e dada a briga sangrenta dos Toynes com os Targaryen, não faria sentido para ele fazer esse contrato para apoiar um Targaryen.
ILLYRIO & SERRA
Outro detalhe interessante de Illyrio na citação acima é ele dizendo especificamente que a linha masculina Blackfyre foi extinta. Isso parece indicar que uma linha feminina sobreviveu. Essa fêmea poderia ter sido a falecida esposa de Illyrio, Serra. Aqui está o que ele diz sobre ela:
Illyrio enfiou a mão direita na manga esquerda e tirou um medalhão de prata. Dentro havia uma pintura de uma mulher com grandes olhos azuis e cabelos de pálido ouro mesclado com prata.
– Serra. Encontrei-a em uma casa de travesseiros lisena e a trouxe para casa, para aquecer minha cama, mas no final me casei com ela. Eu, cuja primeira esposa havia sido prima do Príncipe de Pentos. Os portões do palácio se fecharam para mim depois disso, mas não me importei. Era um preço pequeno por Serra.”
[...]
– Boa sorte! – Illyrio gritou atrás deles. – Diga ao garoto que sinto não estar presente no casamento dele. Vejo vocês de novo em Westeros. Juro pelas mãos da minha doce Serra.
(ADWD, Tyrion II)
Sabemos daí que Serra tinha traços valirianos, olhos azuis e cabelos loiros prateados (embora seja notório que muitas pessoas em Lys têm características valirianas, pois fazia parte do Domínio Valiriano). Além disso, os olhos púrpura são uma característica mais Targaryen do que os azuis. Na última linha, vemos que Illyrio tem uma participação muito pessoal no sucesso de Aegon e fala com muito carinho do garoto. É possível que Aegon seja filho de Illyrio e de Serra (Serra sendo uma Blackfyre).
Isso explicaria por que Illyrio tinha em casa um baú cheio de roupas destinadas a um menino pequeno. Também ajudaria a explicar por que Illyrio está interessado em Westeros. Ele tem todo o dinheiro que ele poderia precisar e Tyrion parece cético em relação às motivações de Illyrio:
– E você tem certeza de que Daenerys vai cumprir as promessas do irmão?
– Pode ser que sim, pode ser que não – Illyrio mordeu metade do ovo. – Eu lhe disse, meu pequeno amigo, nem tudo o que um homem faz é por lucro. Acredite se quiser, mas mesmo velhos gordos tolos como eu têm amigos e dívidas de afeto para pagar.
Mentiroso, pensou Tyrion. Algo nesse empreendimento vale mais para você do que moedas ou castelos.
(ADWD, Tyrion II)
Então, o que é essa "dívida de afeto" que Illyrio procura retribuir que vale mais que "moedas" e "castelos"? Ele pode estar tentando cumprir o desejo de Serra de ver seu filho assumir o Trono de Ferro em nome dos Blackfyres. Ainda que tudo isso se encaixe, é bastante circunstancial.
Outra evidência que indica que Illyrio é o pai de Aegon é uma estátua que ele tem em sua mansão que se parece muito com Aegon (Illyrio mais tarde afirma que é uma versão jovem de si mesmo):
Um rapaz nu estava na água, pronto para um duelo, com uma lâmina bravosi na mão. Era flexível e bonito, com não mais do que dezesseis anos e um cabelo loiro liso que lhe caía sobre os ombros. Parecia tão real que levou um longo tempo até que o anão percebesse que era de mármore pintado, embora a espada brilhasse como aço de verdade.
(ADWD, Tyrion I)
A HISTÓRIA DO SEPTÃO MERIBALD
Septão Meribald conta a Brienne e Pod a história da Estalagem da Encruzilhada:
Ele forjou um novo sinal para o pátio, um dragão de três cabeças em ferro negro que pendurou em um poste de madeira. O animal era tão grande que teve de ser feito em uma dúzia de peças, unidas com corda e arame. Quando o vento soprava, tinia e ressoava, de modo que a estalagem se tornou conhecida por todo lado como o Dragão Ressonante.
– O sinal do dragão ainda está lá? – Podrick quis saber também.
– Não – Septão Meribald respondeu. – Quando o filho do ferreiro era já um velho, um filho bastardo do quarto Aegon ergueu-se em rebelião contra seu irmão legítimo e escolheu como símbolo um dragão negro. Estas terras pertenciam então a Lorde Darry, e sua senhoria era ferozmente leal ao rei. Ver o dragão de ferro negro o deixou furioso, e por isso derrubou o poste, fez o sinal em pedaços e os atirou ao rio. Uma das cabeças do dragão foi dar à costa na Ilha Quieta muitos anos mais tarde, embora nessa época estivesse vermelha de ferrugem.
(AFFC, Brienne VII)
Esta história poderia ser uma alegoria para Aegon ser um Blackfyre. Um dragão negro representa Blackfyre e um dragão vermelho é um Targaryen. Então os dragões negros (Blackfyres) foram forçados a atravessar o Mar Estreito e muitos anos depois um deles (Aegon) enferrujou e agora aparenta ser um dragão vermelho (Targaryen).
VARYS É UM BLACKFYRE
Varys ser um Blackfyre é a parte mais especulativa da teoria e não precisa ser verdadeira para as outras partes sejam verdadeiras. A evidência disso é inteiramente circunstancial, mas explica algumas incoerências no caráter de Varys.
Por que, apesar de afirmar ser um lealista Targaryen, ele estava alimentando a paranóia de Aerys sobre Rhaegar usurpar o trono (de acordo com relatos de Barristan e Jaime)? Por que ele raspa a cabeça? Para poder esconder seus cabelos valirianos (embora o mesmo seja verdade se ele for de alguma descendência valiriana, Blackfyre ou não)?
Além disso, por que Varys foi castrado quando menino? Ele diz a Tyrion o seguinte sobre sua castração:
Um dia, em Myr, um certo homem foi ao nosso espetáculo. Quando terminou, fez uma oferta por mim que meu mestre achou tentadora demais para recusar. Fiquei aterrorizado. Temi que o homem pretendesse me usar como ouvira dizer que os homens usavam garotinhos, mas, na verdade, a única parte de mim que ele queria era meu órgão viril. Deu-me uma poção que me deixou incapaz de me movimentar ou de falar, mas nada fez para adormecer meus sentidos. Com uma longa lâmina em forma de gancho cortou-me raiz e caule, sem parar de entoar cânticos. Vi-o queimar meus órgãos masculinos num braseiro. As chamas ficaram azuis, e ouvi uma voz responder ao seu chamado, embora não compreendesse as palavras que foram ditas.
(ACOK, Tyrion X)
Sabemos pelas práticas de Melisandre que os feiticeiros preferem usar sangue real em seus rituais. Se Varys fosse um Blackfyre, ele teria sangue real.
DUNK & EGG
Uma grande parte das novelas Dunk & Egg cobre a história das Rebeliões Blackfyre. Isso pode indicar um significado maior para os Blackfyres em ASoIaF como um todo. É claro que também poderia ser apenas uma justificativa para as novelas de D&E e não ter qualquer outro significado.
AEGON TER SIDO SALVO NÃO FAZ SENTIDO
Como Varys saberia que Gregor esmagaria o rosto do bebê Aegon de modo a deixa-lo irreconhecível? É improvável que isso possa ter sido planejado.
DISCREPÂNCIA DE IDADE
Aegon nasceu em 282 dC, então, quando Tyrion o conhece, ele deveria ter 18 anos. No entanto, aqui está a descrição de Jovem Griff feita por Tyrion:
Era um jovem ágil e benfeito, magro e com um escandaloso cabelo azul-escuro. O anão calculou sua idade entre quinze, dezesseis anos, ou algo próximo a isso. (ADWD, Tyrion III)
É claro que é muito plausível que um jovem de 18 anos possa ser confundido com um de 16, então eu não chamaria isso de uma evidência forte.
RASCUNHO DE "A DANÇA DOS DRAGÕES"
Os rascunhos anteriores dos capítulos de ADWD têm outras pistas. Especula-se que Martin tenha feito muitos cortes nesse material, porque tornou o parentesco de Aegon muito óbvio.
De uma leitura de Tyrion II em 2005:
"Illyrio diz que quer dar a Jovem Griff suas bênçãos e tem um presente para ele no baú. Haldon diz a ele que a liteira não conseguirá chegar a tempo. Illyrio fica bravo e diz que há coisas que Griff deve saber.
[...]
Haldon olha para Tyrion e então começa a falar em outro idioma. Tyrion não sabe dizer o que é, mas acha que deve ser em volantino. Ele capta algumas palavras que se aproximam do Alto Valiriano. As palavras que ele captura são: rainha, dragão e espada."
Especula-se que Illyrio queria dar Fogonegro (Blackfyre) a Jovem Griff, a espada ancestral da Casa Targaryen que foi levada para o outro lado do mar pelos Blackfyres.
De Elio [Garcia], que analisou os rascunhos primitivos do ADWD:
"Um rascunho anterior do capítulo da "lição" tinha um pouco mais de detalhes sobre Maelys o Monstruoso, e os Blackfyres (para aqueles que possuem o RPG da Guardians of the Order, algumas dessas informações acabaram naquele livro). Eu me pergunto por que George decidiu fazer retirar isso deste livro".
[Nota de u/altovaliriano: Eu verifiquei o livro do RPG da Guardians of the Order e as informações são as mesmas que constam em O Mundo de Gelo e Fogo. Como a fala de Elio é de 2011, ele deve ter conhecido a razão mais tarde, enquanto escrevia O Mundo de Gelo e Fogo a seis mãos com Linda e GRRM]

ARGUMENTOS CONTRA

NENHUMA PROVA!
Um grande argumento contra toda essa teoria é que todas as evidências são basicamente circunstanciais. Isso não quer dizer que as evidências circunstanciais sejam inválidas (especialmente em um livro), mas apenas que ainda não houve nada flagrante ainda.
CONVERSA DE VARYS COM KEVAN
Isto é o que Varys diz ao moribundo Kevan Lannister:
– Aegon? – Por um momento, ele não entendeu. Então se lembrou. Um bebê envolto em um manto carmesim, o tecido manchado com o sangue e o cérebro dele. – Morto. Ele está morto.
– Não. – A voz do eunuco pareceu mais profunda. – Ele está aqui. Aegon tem sido moldado para governar desde antes que pudesse andar. Foi treinado em armas, como convém a um cavaleiro, mas esse não foi o fim de sua educação. Ele lê e escreve, fala diversas línguas, estudou história, leis e poesia. Uma septã o instruiu nos mistérios da Fé desde que teve idade suficiente para entendê-los. Viveu com pescadores, trabalhou com as próprias mãos, nadou em rios, remendou redes e aprendeu a lavar as próprias roupas na necessidade. Ele consegue pescar, cozinhar e curar uma ferida, sabe como é sentir fome, ser caçado, sentir medo. Tommen tem sido ensinado que a realeza é o direito dele. Aegon sabe que a realeza é seu dever, que um rei deve colocar seu povo em primeiro lugar, e viver e governar para eles.
(ADWD, Epílogo)
Varys responde diretamente à pergunta de Kevan sobre Aegon estar morto e diz que não está. Por que Varys mentiria sobre Aegon para Kevan, quem ele estava prestes a matar de qualquer maneira?
É improvável que, se Aegon fosse um Blackfyre, Varys não soubesse disso, pois ele provavelmente foi quem contrabandeou o bebê Aegon de Porto Real (ou não), então ele provavelmente sabe se Aegon é realmente Aegon.
Então, por que mentir para um homem moribundo sobre isso? Algumas possíveis respostas seriam:
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2019.09.11 05:59 Toilet_King Eu não sabia exatamente do que, mas sabia que precisava correr.

Eu não sabia exatamente do que, mas sabia que precisava correr. A porta aberta a minha frente, o corredor e se estendendo e virando além da minha visão, uma promessa de segurança. As pernas doloridas implorando por desistência.
Já estive aqui antes, já abri essa porta. Está chegando perto, preciso correr. Cada passo que dou sinto que vou cair. Escuto-o atrás de mim, o corredor não tem fim, uma perpetua curva para direita. Cheiro de mofo, iluminação fraca, paredes que um dia foram brancas, carpete gasto como se houvesse muita movimentação.
Preciso continuar correndo, está atrás de mim, consigo escutá-lo chegando. Não sei o que está atrás de mim, não consigo olhar para trás, o medo não permite. A quanto tempo estou correndo? Já passei por essa luminária antes.
Eu conheço esse corredor.
Eu cresci nesse corredor, minha infância se passou aqui, correndo, brincando. Durante a vida adulta eu vivi esse corredor, passei correndo todos os dias atrasado para o dia seguinte. Enquanto velho, eu morri nesse corredor. Naquela ponta de carpete levantada, aquela mesmo que vez ou outra vejo passar por mim enquanto corro, tropecei e na queda morri.
Preciso continuar correndo, não posso parar, o corpo pede para desistir, as pernas não aguentam mais meu peso, minha mente cede em cada luz que passa por cima de mim. Preciso continuar correndo, se não...
Se não... Se não... Se não...
Não sei, mas preciso continuar correndo, os passos ficam cada vez mais alto. Sei que estou desacelerando, o coração no peito já não bate mais tão forte, o ar que respiro queima em meus pulmões, mas não posso parar. Sei que estou próximo. Esse corredor, tão familiar, tão meu, me diz que estou próximo do final. O papel de parede que um dia fora branco, agora descasca, revela o concreto cinza e gelado, que na minha infância eu rabisquei, acho até que vi meu nome alguns passos atrás.
Agora tenho certeza, eu vi meu nome, na minha caligrafia. A parede que não mais possui papel, agora somente de um cinza constante, quebrado somente pelo meu nome. Meu nome, na minha caligrafia. tenho certeza que o vi porque ele está sempre reaparecendo, do lado esquerdo lá do além do alcance da minha visão. Meu nome, na minha caligrafia.
Já estive aqui antes, já corri por esse corredor, já escrevi meu nome nessas paredes. Meu nome, na minha caligrafia.
Por que estou correndo? Meu nome? Na minha caligrafia?
Um giz branco risca essa parede, escreve meu nome, na minha caligrafia, quer me distrair. Quer que eu pare de correr, quer que eu desista, mas não vou. Preciso chegar ao final, sei que estou perto, preciso fugir, só mais alguns passos, sei que consigo. Mas meu nome me chama a atenção. Agora do lado direito, e do esquerdo, e do direito, e esquerdo, e direito, esquerdo, direito, esquerdo, direito, esquerdo, esquerda?
O corredor não dobrava à direita?Não. Estou me confundindo.
E meu nome reaparece do lado direito, não consigo parar para ler, nem sequer reconheço as letras, mas sei que é meu nome, sei que é minha caligrafia, sei que quer que eu pare. Minha desistência é sua vitória, não posso parar, não posso desistir.
O cinza da parede me chama, chama pelo giz em minha mão, quero parar e escrever meu nome, para que nunca esqueçam que eu estive aqui.
Giz? Desde quando tenho um giz?
Um giz branco, gasto, meus dedos sujos da mesma branquidão o segura. Um pedaço de giz, pequeno o suficiente para escrever meu nome, no cinza do concreto.
Paro de correr.
Preciso escrever meu nome, na minha caligrafia.
Não! Preciso correr! Preciso fugir dele, ele vem, vão me levar de voltar, me fazer voltar, preciso continuar. Quero correr, o corredor se estende, se dobrando à esquerda para além da minha visão, Eles se aproximam, escuto seus passos. Mas continuo parado.
Meus pés se movem, se rotacionam, viro meu corpo.
O que estou fazendo? Preciso correr! Elas vêm, vão me pegar, me fazer voltar.
Vou escrever meu nome, na minha caligrafia, bem aqui no cinza da parede.
De frente para a parede, com o giz em minha mão escrevo meu nome, letra por letra, na minha caligrafia.
Olho pro meu nome, não reconheço os símbolos, não sei seus sons, mas sei que é meu nome.
Isso me conforta.
Meu nome, na minha caligrafia. Meu nome.
Pelo canto dos olhos eu vejo de onde eu vim, o corredor que passei, vejo a porta.
Uma porta vermelha, lisa, rodeada por uma parede com um papel de parede branco. Cheguei ao fim, finalmente, agora posso descansar.
Me aproximo da porta, seu tom de azul me acalma, meu coração desacelera, minha mão vai ao trinco, puxo.
Pesadamente, a porta verde se abre, a luz forte me encandeia.
Meus olhos acostumados com a escuridão, levam alguns segundos para enxergar. A luz me aquece, sinto o ar fresco, meu nariz estranha a ausência de mofo.
Agora enxergo, o corredor se estende a minha frente, uma curva à direita para além da minha visão. Seu papel de parede branco recém colocado ainda exala o aroma de cola. O carpete recém aspirado me é familiar. Eu conheço esse corredor. É o corredor da minha infância, da minha vida adulta, da minha morte.
Escuto passos. Aquilo vem, me achou, preciso correr. O corpo velho, que outrora fora novo não mais aguenta. Escuto sua respiração, está me cheirando, preciso correr agora, preciso me mover. Levanto meu pé, coloco meu corpo em movimentação. Cada passo meu corpo queima, cada impacto com o chão sinto que minha perna vai quebrar.
Pé na frente do outro, me movo. Fujo. Sei que logo adiante, depois dessa curva, estarei livre.
Distraído, movido pelo medo e cansaço não vejo a ponta, um pedaço do carpete solto. Levantado, como se estivesse me esperando segura meu pé. Meu corpo cai, no desequilíbrio vou de encontro à parece. A mente velha já não mais tem os reflexos para aparar a queda. O concreto acolhe minha cabeça e tudo vira escuridão.
Sinto o calor do sangue escorrer. É quente, agradável, passa um pouco do frio que sinto. O carpete em que me deito me abraça, meu corpo cansado quer descansar. Só mais uma vez, antes de dormir, abro os olhos, quero me despedir do corredor da minha vida.
Então eu noto.
O carpete levantado, a madeira exposta. Uma alça.
Edit:formatação
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2019.03.11 23:34 lizziehope Quarto secreto.

Quando trago, arrasto a ansiedade, engraçado. Fumaça na cidade inteira. Onde está a paz? Olho para o céu cinza, ou azul e frio. Tem um pouco de sol, ou uma assemelhança com a esperança de que o sol possa raiar um dia. Esperança de que a arte seja bem vinda no mundo novo. Um mundo cercado por grades de números, números que compram a alma. Talvez tenhamos achado o relógio, estou contando meus milhões. Como vagalumes, porém sou pequena, um pequeno número em negativo no centro de uma corrida de grandes números. Aglomerados de fãs e almas soltas. Talvez zumbis, mas ainda preciso de outras sombras para poder dormir. Não entendo a gritaria quando chamo o diabo, se quando chamo Deus não há resposta. A resposta se encontra em silêncio, mas no silêncio gritam meus pecados por mim. O confessionário nem ao menos deveria existir, se ninguém pode vender o perdão. Talvez vendam perdões falsos, ou então apertos de mãos. Acho que achei a vitória, um símbolo de paz, ou um soco no ar. Perdi. A vitória ainda pode ser minha. Como se eu conseguisse nadar, mesmo cega. Não me surpreenderia em ver no meu futuro l sucesso, mas não surpreendo de ver o fracasso em meu presente. Estaria jogando tudo fora? Ou não consigo seguir em frente? Estaria realmente o prendendo? Ou ele segue meus passos a procura do silencio? Não existe o silêncio. Eu também acredito que talvez um dia eu possa encontrar o meu. Infelizmente, não suporto o silêncio, ele invade minha alma com solidão. Mas a solidão é necessária, ela destrói minha alma e a minha alma cai como lágrimas em palavras talvez inversas a minha intenção, mas mesmo assim, traduzem o que de fato quero apagar, ou transmitir, como uma reverência, para poder descansar em paz. Tudo bem, não reviverei os mortos, nem convido-os para danças secretas. Meu coração quebrado, sente saudades da vida, minha alma vagueia entre os mortos e entre os vivos onlines, entre vidas e passados. Pecados todos pagos, ou apagados na memória? Todos salvarão o que eu tenho a dizer, porque o que tenho a dizer, talvez seja um pouco menos intenso do que o que o silêncio quer transmitir.
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2017.09.17 05:55 pedrothegrey O detetive.

Entendiado na sala de espera. Fazem quarenta minutos que estou sentado neste sofazinho marrom, esperando que me chamem. Folheio as revistas e ouço o barulho da rua, o som das buzinas irritadas e o choro das crianças, o grito das mães, do dinheiro que entra no caixa, do assaltante que foge. Os sons que por mais de 10 anos escuto todo santo dia.
— Detetive N...! — Ouço a secretária gritar.
— Aqui. — Respondo, com rispidez.
— A doutora H... pediu para que o senhor entre, a consulta vai durar apenas vinte minutos. Não se preocupe.
Faço que sim com a cabeça e entro no consultório. Era diferente do que eu imaginava, na sua mesa tinham algumas pilhas de papéis, fichas dos pacientes, algumas revistas de psicologia em francês e inglês e uma cadeira na frente da mesa. Ela era uma mulher alta e bonita, motivo pelo qual tantos policiais não se importavam em ter que fazer as seções obrigatórias. Eu me sento na cadeira, pego o maço de cigarros amassado que guardo no bolso e puxo um cigarro.
— Você não pode fumar aqui. — Ela me diz, e com muito desgosto guardo o cigarro. — Estou vendo na sua ficha, você veio aqui porquê... deixa eu ver... Ah! Agrediu um padre. O senhor confirma? Ótimo, vamos prosseguir. Esta é a primeira das sete visitas obrigatórias, vou pedir para que o senhor assine aqui. E aqui. Obrigada. Agora sente-se. O senhor poderia me contar um pouco mais sobre sua experiência?
— Sobre o padre? Vamos, doutora, está tudo na ficha. Tudo bem, tudo bem, eu falo. Tínhamos uma investigação de violência sexual de um menor na paróquia da rua 52. Recebemos alguns telefonemas anônimos detalhando certos aspectos da aliciação dos garotos, e o modus operandi deste padre em específico. Minha equipe seguiu de perto o caso, e tínhamos fortes evidências que sugeriam que o padre guardava um diário, onde ele fazia uma espécie de confessionário com ele mesmo. Pedimos um mandato ao Juiz para investigar sua casa e encontrá-lo, mas vi que ele ia rejeitar o pedido quando retirou debaixo do terno um crucifixo e o mostrou para mim.
Eu olhava pela janela que ficava ao lado da cadeira onde me sentava, e contemplava, como um espectador em imersão, as entranhas da cidade. Havia muito que eu não enxergava as vísceras dela, mas daquele consultório eu tinha uma visão privilegiada da podridão.
— Continue, por favor. — Ela disse, rabiscando seu bloco de notas.
— No fim das contas, o juiz acabou contando ao padre sobre a investigação. As provas, nesse momento, devem estar enterradas debaixo dos sete círculos do inferno. — Eu disse, cansado.
— E você foi atrás dele? Quer dizer, do padre. — Ela perguntou.
— Olha, doutora, acho que repetir tudo que está registrado na minha ficha não vai me ajudar em nada. O que você quer que eu diga? Olhe pela janela e veja. Pouse seu olhar em um ponto fixo e observe os arredores, note como o ponto vai mudar. Perceba como as pessoas vem e vão em perfeita harmonia com o ambiente, com uma sincronia ímpar entre a indiferença social e cósmica. Socar a cara daquele padre não me fez bem, tampouco ajudou as crianças ou a investigação. Fiz o que fiz pelo mais mesquinho dos desejos. Sou isso, tempestade e ímpeto. Um coração à deriva, uma garrafa de consciência largada num oceano revolto de emoções profusas e indistinguíveis. Tentar ver valor ou significado nas minhas ações vai se mostrar, como a senhora verá nas próximas seções, a mais inútil das tarefas.
Um alarme que vinha do relógio de pulso da doutora disparou.
— N..., acredito que estamos progredindo. Nossa seção está encerrada, mas o aguardo para a próxima. Você se importa de chamar o próximo? Feche a porta. Adeus. Eu saio do consultório. São 18:30h e já anoiteceu. Uma noite sem estrelas, sem o máximo atestado da indiferença do mundo. Isso me força a olhar para frente, para a rua e para as pessoas. Elas tem caras de sono, mas a doença destas é o tédio, que em um bocejo mortal, engolirá a todos nós. Da onde eu ouvi isso? Deve ter sido algum francês, talvez Baudelaire ou Flaubert, não tenho certeza. Mas soa francês, não é?
Caminho para o estacionamento, entro no carro e dou a ignição no motor. A 120 quilômetros por hora numa rodovia mal iluminada, enxergo somente a sinalização reflexiva do chão. Algum drogado sai correndo de um canto qualquer, e num instante me desvio dele, derrapando os pneus e quase capotando o carro. Com o coração acelerado, sinto a adrenalina residual no meu corpo, que agora não tem mais uso além de deixar tenso. Talvez seja esse um problema mais geral do que eu imaginei, adrenalina residual.
Meus punhos ainda doem. As crianças ainda choram. E o padre ainda faz sua confissão e se exime dos pecados. Numa espécie de autoflagelação profana, nós seguimos unidos em um mesmo destino, em uma mesma aventura pagã e sádica. Eternas peças em um tabuleiro sem divisões, de um jogo sem regras. Sem um começo ou um final, seguimos no mesmo ritmo melancólico até o final das eras. Todos nós. Eu, as crianças e o padre.
Perco minha linha de raciocínio; o bip de superaquecimento do carro havia sido acionado há alguns minutos, e somente agora, quando o carro começa a esfumaçar, reparo. Ligo para a seguradora, em vinte minutos o reboque vai chegar. Me sento no banco novamente, olhando os carros que vão e vem, em borrões retangulares à luz de postes amarelados. A maioria tem seu destino para fora do centro da cidade, correndo o mais rápido que podem em direção aos subúrbios, tentando fugir de mais um dia.
O reboque chega e eu ganho uma carona. Preencho a papelada da oficina; me dão um prazo de duas semanas para terminar de consertar o carro. Chego em casa, tão disperso que nem me lembro como. Não importa. Tiro o uniforme, o revólver do coldre. Banho. Me sento a frente da escrivaninha, tiro a munição do tambor da arma, desencaixo o tambor e a empunhadura. Limpo o revolver com delicadeza, tirando poeira e pólvora seca de cada ranhura. Respeito a arma. Melhor, eu a admiro. Ela é um símbolo, e Deus sabe que temos poucos bons símbolos hoje em dia. É muda e sincera, a face da morte, representante máxima da impotência e da ignorância humana. Eu entendo o motivo pelo qual, durante o treinamento, fomos disciplinados a amá-la como nossa mulher. Ah! Eu entendo. Eu durmo em rápida e profunda dormência...
... Estou atrasado. Visto meu uniforme e vou para o ponto de ônibus. Faz um calor opressor, o vento corre pelo meu rosto, secando-o em pinceladas secas e dolorosas. Insipiro e expiro; o som é alto e seco, um barulho de papel amassando, de cigarro queimando. O ônibus chega e libera mais uma lufada de ar quente, que sai do escapamento, em mim. Entro e me sento. O calor faz o rosto das pessoas parecer miserável às sete da manhã, e o meu não é diferente. Olho pela janela e o sol mutila a todos como o olhar de uma mulher, mas não me engano, pois nem todos sentem isto, assim como nem todos estão conscientes dos olhares das mulheres, da maré alta durante a lua cheia ou das flores do mal, que morrem em agonia, sem o amor de um poeta. De novo essa paixão francesa no meu coração, recorrente, irreal.
Alguém faz sinal. O ônibus para e entram uma mulher e duas crianças. Uma delas com cinco ou seis anos, a outra, apenas um bebê no colo de uma mulher. Uma mulher negra, magra, com um cabelo desgrenhado, porém bem cuidado. Alta e forte, ela carrega a criança como se nada pesasse, se move com graça com toda a bagagem feminina, isto é, bolsas, fraldas, mamadeiras, roupas reserva etc. Vestia um vestido colorido, predominantemente verde, e no pescoço, um crucifixo de madeira. Quando tirei os olhos dela e olhei o menino, foi que reparei quem ele era. Nunca vou esquecer do olhar que me deu, nem da forma como, logo em seguida, desviou o olhar envergonhado. O medo, o desespero, a dor nos olhos de uma criança; de todos os grandes filósofos, só o maior deles entendeu o desespero de uma criança, mas mesmo assim, Ivan Karamazov só renunciou a Deus. Que haverei eu de fazer? Eu, que já não tenho a quem fazer rebelião, pois que nunca tive religião. Não amo a vida, o viver, e portanto não me basta o destino de Werther, de Hemingway. O que é o homem sem rebelião, ou ainda, sem a quem se rebelar? Nada mais que um inseto. E esse pensamento sempre foi tão natural, tão profundo no meu ser, que me espanta só agora ter me tornado consciente dele.
Em pouco tempo, cinco horas se passaram. Estou almoçando sozinho, em um restaurante barato, vendo o noticiário sensacionalista do horário dos insetos. O trabalho não me deixa em paz nem quando como. Saio de lá de estômago vazio, pago minha conta e me ponho a andar. Em alguns instantes já será hora da consulta.
— Assine aqui... e aqui. — Disse a doutora. — Sente-se, por favor, fique à vontade. — Nos sentamos e nos encaramos por alguns segundos.
— Posso quebrar o gelo?
— Com certeza.
— Você quer tomar um café comigo depois da sessão?
— O quê?
— Vai ser interessante.
— Isso é inapropriado, senhor N...!
— Ah! Tudo bem. Bom... é...
— O senhor pode começar me falando como se sentiu depois da sessão anterior.
— Eu comecei a fumar mais.
— Tem vontade de parar?
— Nenhuma.
— O senhor deveria ten...
— Você pode me receitar algum remédio para dormir? — A interrompi.
— O senhor está tendo problemas para dormir?
— Não. Durmo o sono das crianças. Só que são as dessa cidade.
— Ri, e percebi que ela se assustou com o comentário.
— Não existe razão para que eu receite esse tipo de remédio então, não é?
— E o que você pode me receitar?
— Qual o seu problema?
— Achei que você pudesse me dizer.
— Sou a mediadora, senhor N...
— Ah! Entendo. Posso ir embora?
— A corporação o obriga a fazer as seções.
— Eles sabem ser persuasivos. Eu não tenho nada para falar hoje. E como eu disse, tudo que faço é ímpeto. A senhora não vai achar nenhum material de estudo nos meus problemas.
— Meu objetivo não é esse. Quero somente te ajudar.
— A senhora pode reverter uma decisão judicial?
— Não, não posso.
— Então a senhora não pode me ajudar.
Passados cinco minutos de silencio, eu olhava para o teto e para a janela do consultório. Da rua, via-se um bar. Nele, rapazes sem camisa, com bermuda e boné. Carros de som estacionados na rua reverberam música em volumes altíssimos. Os gritos e os risos raramente eram distinguidos do som alto, mas se faziam ouvir no meio do barulho. Do outro lado da rua, saído de algum beco inominável, um homem branco, pálido, magro, seco e encurvado, atravessa a rua. Sua camisa, rasgada pela metade, expunha sua costela que se sobressaía da pele. E o cheiro e a dor da miséria eram transmitidos no olhar. Seus braços estavam cobertos de feridas, o sangue denso, coagulado, estava preso na pele, acobertando parte das manchas de infecção que seu corpo colecionava. Ele tremia as mãos e na direita exibia um caco de vidro. Ele se aproximou do bar convulsivamente, tremendo todas as partes do corpo. Um homem sem controle. Aquilo já não era mais um homem, não era... Ah! Os insetos! Sempre me perseguem. Absorto em meu pensamento narcisista, só me dou conta do problema depois que o som dos carros é interrompido. Os rapazes expulsam o ser à socos e chutes. Como ele não rachou ou quebrou é impressionante, devo dizer. Olho para a doutora e aponto, com o olhar, para a rua.
— Só assine aqui antes de ir. — Ela disse.
Saio depressa do consultório, chego na calçada e avanço para o bar. Perguntas rotineiras. Sigo o caminho que disseram que o inseto havia percorrido, e faço eu o mesmo caminho. Procurando; Ouroboros. Perco rapidamente a corrida, os labirintos do centro se estendem além da compreensão humana, e paro no meio da rua, ofegante. O silêncio me oprime. Olho no celular; 18:13. A noite começa a chegar, aumentando o sibilo do vento e diminuindo a temperatura. Eu só tenho que seguir na mesma direção que ele pode ter ido, me embrenhar mais profundamente nas ruas apagadas, passar por entre as praças, com seus bancos e brinquedos quebrados. Eu tenho que continuar a seguí-lo. Eu quero continuar. Uma raiva irracional começa a brotar de mim, e a abraço como ela vem.
Subitamente, um grito. Agudo, desesperado, forte e vigoroso. Deus! Eu demorei demais. Sigo o grito, "SAI DAQUI! MEU DEUS, AJUDA!", viro uma, duas, três ruas e o grito cessa. Debaixo da luz do poste, embaixo de um céu sem estrelas, jaz um corpo que sangra. Eu saco o revólver e sigo com cautela, olho em todas as direções e me aproximo do corpo. Coloco meus dedos indicador e médio no seu pescoço; sem pulso. Viro o corpo e a luz amarelada e inconstante do poste revela uma mulher negra, bonita. Com um vestido verde manchado de sangue, rasgado no peito e na barriga. O sangue escorre delicadamente do seu corpo, criando um padrão singular no chão, onde uma pequena poça se forma, e em um ou dois segundos, o sangue caminha devagar para o esgoto. O crucifixo que ela usava mais cedo havia sumido. A melancolia não me atinge, a adrenalina permanece comigo, olho atento em todas as direções e... Ela não carregava um bebê mais cedo?
Aperto a empunhadura do revolver com força, estendo meus braços e tento mirar para frente. Minhas mãos tremem; um homem sem controle. Não posso me desesperar agora, não, não agora! Ouço um barulho pouco mais alto que meus pensamentos, uma lata de alumínio cai no chão. Achei. Sigo o som devagar, com passos determinados. Uma esquina; me viro rapidamente, engatilhando o revolver. Da sombra sai o inseto. Trêmulo e vacilante. Cadê o bebê? Cadê o bebê? Olho para os lados mas é só escuridão.
— Você pegou o bebê!? — Gritei. — Responde, caralho!
O inseto grunhiu baixinho, como se coçasse a garganta. As mãos trêmulas sobem e sobem, até chegarem na sua boca. Ele a cobre com uma das mão, e a outra o acaricia, como se tivesse vida própria, independente. Ele ri, uma risada abjeta e irreal, que não exprimia felicidade, nem dor, nem qualquer sentimento humano. Era um som, que me convém chamar de riso, pela semelhança auditiva. Em um borrão, num movimento cego, aperto o gatilho. O martelo cai e cria a faísca... Silêncio. Depois de tanto limpar o revolver ele falha agora, é como se a lua afetasse as armas como ela afeta as mulheres. Segurei o revolver pelo cano e tambor, com a outra mão segurei o cabelo da criatura. O barulho seco da madeira batendo no crânio dele ecoava no beco escuro. A empunhadura estava manchada de sangue, e não sei diferenciar meu sangue do dele na minha mão.
— O que 'cês tão' fazendo aí, porra? — Gritou uma voz, vinda da janela do apartamento do lado do beco.
Isso! A luz do apartamento. Eu olho para frente, e do lado de uma montanha de sacos de lixo, encontro o bebê, e o pedaço de vidro que o inseto carregava mais cedo estava fincado no seu pequeno pescoço. A luz se vai, o homem vê minha arma e o corpo no chão e se assusta. Se esconde na sua casa. Ele vai ligar para polícia, nem preciso me incomodar. Pego meu celular, mas a tela trava com o sangue e o suor, desisto. Me sento na calçada junto da mulher, embaixo da luz do poste. A poça de sangue chegou no bueiro, e meu coração ainda corre acelerado; adrenalina residual. Depois disso ainda tenho que pegar um ônibus para casa, será que eu vou encontrar o menino? Não, claro que não, ele vai para a delegacia... Espero que eu não tenha que dar a notícia para o garoto.
O barulho das sirenes fica mais e mais alto. Os carros estacionam.
— Senhor N..., você 'tá' bem? 'Tá' machucado? — Me perguntou um dos cabos.
— Não. Só não quero que o D... me coloque pra falar com o garoto.
— Que garoto?
— O garoto, porra. O filho dela. — Apontei para o corpo da mulher.
— Vou pedir 'pro' S... te levar, ok? Deixa que a gente cuida do resto.
Fui colocado na viatura e levado para a delegacia. Da janela, eu via os borrões dos carros, indo e vindo. Na minha mente falavam uma multidão, uma pluralidade de vozes, gritos e sons ininteligíveis. Uma pena, não ouvi o barulho do motor velho da viatura, o zunido dos carros que passavam por mim, me eram sons caros, me acalmavam. O carro parou de repente. Fui retirado por um colega e colocado na minha sala. Me deram água e café. Alguém bate na porta.
— Entra.
— N..., como você tá?
— Eu vou ser preso?
— Por causa do drogado? A gente já deu um jeito nisso, ninguém vai notar.
— Ótimo. E o filho da mulher?
— Já encaminhamos o garoto para o orfanato municipal. Falamos com ele, me disseram do seu pedido.
— Perfeito.
O orfanato municipal, eu já sabia, recebe a maior parte da ajuda e doações da paróquia da rua 52... Eu mereço meu destino, juro que mereço. Mas a mulher e os meninos não, não, não mereciam. E mais um dia se passa na cidade dos insetos, onde nossa sina cruel e vil se faz visível através das almas inocentes. Eternamente impotentes, pagamos um dívida infinita à ninguém, nadando nus em um mar de canivetes e facas, onde a consciência se desfaz e o desespero é cada vez mais cutâneo.
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